INTERVIEW - Liliane Carvalho

Liliane Edira Ferreira Carvalho é graduada em história/Ufsc, e mestre em história cultural/Ufsc. Professora de história da arte e da moda nas instituições Unisul/Fpolis e Tubarão e Uniasselvi/Indaial.
Qual a relação, hoje, que a moda estabeleceu com a identidade brasileira?
Hoje, o que mais se fala, no Brasil, é de uma identidade da moda nacional. Antes de qualquer coisa, entretanto, cabe perguntar: qual identidade brasileira? Sabemos que somos uma mistura de povos e, conseqüentemente, uma mistura de culturas. O discurso da busca de “uma identidade”, muito pertinente desde a Era Vargas, perdeu fôlego com o advento da valorização da pluralidade. Assim, falar hoje de identidade brasileira é falar de identidades – assim mesmo, no plural. Na atualidade, o Brasil desponta no cenário internacional como um país misto, cuja riqueza cultural se pauta exatamente na heterogeneidade: nossos diferentes corpos, cores, sotaques, crenças, comidas e práticas sociais, caracterizam esta vasta terra como uma noção rica em sua cultura.
Como falar então de uma moda brasileira? O que pode ser, nesta diversidade, mais característico da identidade? Exatamente a diversidade. É nisso que pautam-se os criadores para diferenciarem a produção nacional da estética globalizada. Apesar de seus discursos não destoarem do que é proposto internacionalmente, agregam a estes aquilo que nos diferencia, que nos torna, apesar de plurais, únicos no contraste, nossa diversidade. É fácil observar isso nos trabalhos que estilistas brasileiros, como Lino Villaventura e Ronaldo Fraga, entre outros, colocam nas passarelas todos os anos: as misturas entre tecidos ditos nobres com o artesanal, os fuxicos, rendas de bilro, a efervescência de cores e a ousadia das modelagens, as temáticas regionais, com seus animais, história, plantas e povo, as micro histórias, as histórias particulares – e nisso é especialista Ronaldo Fraga – que falam de um brasileiro, cujas desventuras podiam ser de qualquer um, inclusive, minhas ou suas, todos esses elementos falam do Brasil e o que é ser brasileiro nas passarelas. E o que se fala é que, apesar de todos os problemas, que ninguém precisa mencionar pois são bem conhecidos, nossa riqueza como nação está em nossa cultura tão diversa, tão plural como o próprio brasileiro.
Você observa, então, que a cultura brasileira tem sido referenciada nas coleções atualmente, mas quem você aponta como o estilista precursor dessa idéia?
Bom, sem dúvida, podemos apontar Denner e Zuzu Angel como os precursores. Mas é Zuzu Angel o grande diferencial, pois ao falar da ditadura brasileira e suas práticas de tortura e morte, ela mostrou para o mundo , em seus desfiles internacionais, como era sofrido o coração brasileiro. Falou dos filhos, anjos torturados, mas também das mães que, assim como ela, esperavam....uma resposta, um ponto final. Acredito que foi uma das primeiras vezes que um criador brasileiro ousou trazer uma temática tão nacional para o discurso estético corrente internacionalmente. Ousadia ainda maior pela temática ser a dor, a tortura e a morte, aquilo que nós como sociedade constantemente recalcamos. Isso, aliado ao espaço de glamour, que era a passarela, levou a uma moda brasileira politizada. Depois dela, infelizmente, só fomos ver novamente o discurso da brasilidade nos jovens criadores.
Você pode adiantar algumas informações sobre o curso extracurricular que pretende ministrar na Unisul (Fpolis), “A estética do horror: textualidades, cinema e moda da Era Vitoriana ao Contemporâneo”?
É um curso voltado, principalmente, para estudantes de moda e cinema, mas estará aberto ao público em geral. Como trabalho com História da Arte e da Moda, percebo que a concepção do belo e do grotesco são construídas cultural e historicamente. Propus, então, nessa disciplina, estudar o grotesco, ou “a estética do horror”, que surgiu nos textos de escritores ditos decadentes do século XIX e que ganharam roupagem cinematográfica no século XX. Assim, obras como “O Corvo”, de Poe “Frankenstein” de Mary Shelley e mesmo “Drácula” de Bram Stoker, trazem em suas obras uma estética não somente discursiva, mas visual, que está muito presente ainda hoje. A grosso modo, é isso.


7 Comments:
Este curso deve ser muito interessante, gostaria de poder frequentá-lo porém, moro em Curitiba. De qualquer forma parabéns!
Luis Henrique.
Liliane,
Em se tratando de estética, li uma frase que acho pertinente e expressa muito bem seu sentido:
"Quer sejamos longilíneos, brevilíneos, redondos, chatos ou cúbicos, somos como somos. A estrutura imperfeita, se for comum, é considerada normal. A beleza das justas proporções não será, assim como a saúde, um dom raramente concedido pela natureza ingrata?... A beleza não é uma idéia tão arbitrária e fugaz quanto a moda?
Citação do livro: O corpo tem suas razões: antiginástica e consciência de si. Thérèse Bertherat.
Adorei esta entrevista, nos faz refletir sobre identidade, brasilidade, pluralidade, estética.
Liliane,
Gostaria de saber onde fica os índios nesta identidade brasileira? Vc não citou-os em nenhum momento, será que eles não ajudaram na construção de uma identidade brasileira? Afinal, foram eles os primeiros habitantes do Brasil??? A origem de uma identidade não seria indígena??
Se vc puder responder a esta indagação meu e-mail:
www.brau2010@hotmail.com
A Lili é fantásica, ja tive aula com ela e adorei,
admiro-a muito.
Bjos
Grande Lili sempre cheia de informações bárbaras para todos,beijinhos de sua aluna prima Simone Elias.
Prof. Lili!!
Estou feliz em ser sua aluna e cada dia aprender mais com você!!
Adorei a entrevista!!
Beijinhos da sua aluna
Fernanda Souto
Gahbibi:
Lili,
li sua entrevista e gostei!!
respondesse com objetividade às perguntas!!!
E alias o que foi esse tal de Braulio dizendo que voce nao sitou os indios?!INsanidade!! Se nao entendeu fica quieto!!!
uahuahhuah
bom, beijos pra voce que é a melhor professora de historia do mundo!!!!
Postar um comentário
<< Home