Cascaes pode ser considerado um representante das expressões culturais da Ilha, ora como produtor ora como pesquisador. Mas como ele faz isto? Como produtor cultural, Cascaes é acima de tudo um artista que manifesta sua singularidade criativa pelo desenho, pela escultura, por suas ambientações e por seus escritos. Mas toda a sua produção artística está ancorada principalmente em pesquisa de campo.
Como um historiador popular, Cascaes busca compreender a materialidade cultural da sociedade da qual participa, ou seja, da sua cidade e da tradição que alimenta este mesmo lugar. O que caracterizaria então esta tradição da nossa Ilha? Penso que talvez Cascaes respondesse que a tradição vem exemplarmente do que é transmitido, de pai para filho, de geração em geração. Seria um jeito próprio de dizer algo de si, que pode ser individual ou coletivo, privado ou público. São aquelas histórias que nos contavam quando crianças e que até hoje nos lembramos com carinho e com a saudade de um tempo que não retorna. Cascaes fez, durante toda a sua vida, exatamente isto: nos contou histórias da Ilha. Assim, os protagonistas destes contos são bruxas, lobisomens, curupiras, boitatás, benzedeiras, pescadores, enfim, tudo o que diz respeito às superstições, crenças, hábitos, costumes, arquitetura, religiosidade dos antigos moradores da Ilha.
Sabe-se que até hoje muitos acreditam existir bruxas na Ilha. Basta ir à Lagoa da Conceição e falar com os antigos moradores, aqueles bem velhinhos que guardam na memória a experiência vivida nos idos em que não existia iluminação pública. Este ambiente gestou as narrações da bruxa como um ente noturno assustador, que embruxava as criancinhas, que roubava as canoas dos pescadores, que emaranhava os rabos dos cavalos, enfim, que encantou Cascaes. Nos seus escritos e desenhos Cascaes fala muito desta figura.
Destaco, e isto é visível em sua produção, tipos diferentes de bruxas. Não falo da maneira estilística da representação, falo antes de categorias distintas que enunciam conteúdos próprios. Por exemplo: a bruxa tradicional falará das peripécias bruxólicas narradas pelos antigos; a bruxa modernizadora, criação do próprio Cascaes, demonstra sua crítica ao processo de modernização de Florianópolis; a bruxa tecnológica, também invenção do artista, fala de bruxas que saíram da terra para conquistar e explorar o espaço; o último grupo é o que representa a bruxa política, no qual Cascaes vê Jânio Quadros como o maior dos bruxos. Em minha dissertação de mestrado estudo e analiso estas quatro categorias.
O que Franklin Cascaes representou no passado para sua própria geração e o que ele poderia representar hoje para a história de Florianópolis?
Cascaes comentava que um dos propósitos de seu trabalho era o de levar cultura aos homens de sua geração que estavam alheios à tradição da Ilha. Esta mediação realizada por Cascaes entre a tradição e as pessoas que desconheciam a cultura popular dos interiores da Ilha, consistia principalmente em histórias publicadas, quase que semanalmente, na imprensa escrita, ou nas exposições de motivos folclóricos realizadas pelo artista. É interessante frisar que na década de 1950 recebiam-se convites para participar das exposições, motivo pelo qual muitas pessoas não freqüentavam os ambientes artísticos. Como seu objetivo era o de facilitar este acesso, porque acreditava que a arte deveria estar próxima do povo, Cascaes organizava exposições a céu aberto, como sob a Figueira da Praça XV.
Cascaes recolheu a tradição popular ou a experiência coletiva dos moradores, em suas constantes viagens de barco, canoa, de Kombi e até mesmo a pé, nas freguesias pesqueiras. Levantou um vasto material, durante as décadas de 1940, 1950, 1960 e 1970, principalmente em textos escritos que são contabilizados em mais de cem cadernos. A este material dá-se o nome de manuscritos ou registros autógrafos, porque foram escritos de próprio punho.
Portanto, Cascaes tinha propriedade, pois falava de coisas vivas, de suas experiências ao ouvir os narradores populares. Estes registros, para além de sua história, significariam à nossa geração testemunhos, uma vez que apreenderam uma matéria que talvez hoje não exista mais. A oralidade apenas sobrevive se há quem a narre, e, sobretudo, se há quem a ouça. Cascaes foi um narrador para a sua geração e continua sendo aos que desejam encontrar uma Florianópolis anterior ao seu processo de modernização.
Pode-se falar de um processo criativo na produção de Franklin Cascaes?
Cada pesquisador, cientista, escritor ou artista tem um jeito peculiar de produzir. Existem até teorias que chegam a discorrer sobre os processos que desencadeiam o ato formativo. Referentes a Cascaes, destaco dois momentos distintos da sua produção. O primeiro processo, muito próximo de um registro etnográfico, procura ser fiel à memória coletiva registrada por Cascaes através dos causos contados pelos antigos moradores da Ilha. Este primeiro movimento nos possibilita conhecer o Cascaes pesquisador e a sua preocupação em legar para a posterioridade a raiz popular da cultura açoriana.
A produção que nos chegou deste processo está editada em dois livros de contos, intitulados O fantástico na Ilha de Santa Catarina. São vinte e quatro histórias contadas por Cascaes. O segundo processo de trabalho é mais inventivo, por nos apresentar o Cascaes artista. É decorrente deste percurso toda sua produção gráfica, que soma mais de novecentos desenhos. Cascaes falava que depois de ouvir as narrações orais dos contadores populares, ele fazia uma espécie de montagem, quer dizer, criava seus desenhos a partir do que lhe fora testemunhado.
Como o estudo histórico de Florianópolis pode ser percebido na produção de Franklin Cascaes?
Cascaes inicia sua produção num momento em que a Ilha voltava-se para seu processo de modernização. Por exemplo, num âmbito comunitário, a pesca artesanal intimidava-se com os novos recursos tecnológicos e com as grandes embarcações; no âmbito privado, a rede de energia pública amplia-se, abrindo caminho para uma nova configuração do espaço doméstico. A partir de meados da década de cinqüenta, a cidade expande-se.
É visível no estilo das edificações um novo traçado arquitetônico, que se ajusta à funcionalidade urbana. Da mesma forma em que a Universidade Federal traz a promessa cultural à cidade, surge a televisão alardeando ares de modernidade. Temendo que a memória popular definhasse frente ao progresso, uma vez que os hábitos dos moradores paulatinamente mudavam, Cascaes empreende dar continuidade para esta experiência, ainda que o fizesse individualmente. Tal trabalho foi tão bem desempenhado que Cascaes acabou também registrando o próprio processo de mudança, o que se pode chamar de um estudo não apenas histórico, mas cultural, social e econômico do que ocorreu em Florianópolis ou, ocorrendo em outros lugares, foi aqui recebido.
E curiosamente tais mudanças históricas sempre estão relacionadas com bruxas: a mini-saia, invenção da moda da década de 60, é representada nas bruxas, juntamente com botas longas e meias arrastão; a chegada à Lua permite a construção de todo um imaginário de vida fora da terra, e Cascaes faz suas bruxas viajarem ao espaço; a eleição meteórica de Jânio Quadros, cujo símbolo de campanha significativamente era a vassoura, é interpretado como resultado de um pacto com forças bruxólicas. Tais exemplos bastariam para assegurar o valor histórico do trabalho de Cascaes, se não houvesse centenas de outros textos e trabalhos artísticos que permitem conhecer uma Florianópolis em suas mudanças.
Agradeço a professora Kellyn Batistela por conceder esta entrevista. Ela nos oportunizou conhecer ou relembrar um dos mais importantes representantes das expressões culturais da ilha de FLorianópolis, Franklin Cascaes. Ele resgata, em suas impressões artísticas e textuais, uma parte importante da nossa história e cultura: do passado e futuro.